quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

13 Goiânia Noise - Novembro 2007





Com cem anos de idade, Oscar Niemeyer é um monumento vivo de uma velha arquitetura, um dos últimos suspiros deste modernismo, já desajeitadamente anacrônico na configuração urbana do “pós”. Inaugura-se mais uma obra: um espaço por assim dizer, natimorto. Gigante entorpecido por anos de existência restrita ao ambiente virtual do projeto e receptáculo nu de valores já ascendidos, o conjunto monumental oferece seu concreto fino e frágil aos elementos vorazes, ao sol e à chuva da funcionalidade orgânica do presente. Seus ângulos heroicamente óbvios nada podem fazer para ocultar a artificialidade do cimento, do vidro e do aço. Seus utópicos pilotis agora sequer são compreendidos e nada podem diante da exuberante e cruel partilha do espaço que ocorre logo adiante, nos condomínios fechados da elite goianiense.

Pela segunda vez o Goiânia Noise é realizado no Centro Cultural Oscar Niemeyer e parece que aqui encontrou o seu lugar.

2006: natimorto prematuro; a construção recém plantada no solo, cal, a pressa política para a inauguração. O cemitério modernista morto duas vezes: por suplantado e por – tipicamente – inacabado. Nem telefones públicos havia. Rock, carpete no teatro, cigarros apagados e cerveja derramada no carpete do teatro, acústica deficiente? Por que o som do teatro principal não se ajusta em umas bandas e se ajusta em outras?

2007: chuva, sol, claridade, olhos semicerrados. O espaço já adaptado à cidade em alguma instância. Pronto?

Esse foi o maior Goiânia Noise. Três mil pessoas por dia em média, de acordo com a imprensa. Foi também o que contou com o maior subsídio público: 500.000 reais - de acordo com O Popular -, sendo 200.000 fornecidos pela primeira edição do Edital Petrobrás. Muito mais do que os valores arrecadados pelas duas maiores edições anteriores, a de 2006 e a de 2003, realizada no Jóquei Clube de Goiânia.

É imperioso aqui destacar uma das coisas mais notáveis deste festival. Os níveis de sutileza e complexidade mostrados na curadoria, ou, mais especificamente, na seleção e disposição de bandas para este décimo terceiro Noise. O estado da arte do Goiânia Noise, a maior demonstração de toda a experiência, conhecimento empírico e profissionalismo – para usar o termo instrumental – de seus produtores, está nos critérios – na tática – utilizados para a seleção e posicionamento das bandas que se apresentaram no evento. Poderíamos até mesmo fazer uma interpretação específica ou um texto sobre o Noise sob o ponto de vista de sua ordenação de shows.

Um texto assim analisaria toda uma linguagem que diz respeito a detalhes como, por exemplo, quais as bandas que tocaram nas primeiras posições e qual o significado disso em relação a cada uma delas; também poderia analisar por que bandas locais “intermediárias” – Barfly, Valentina e Rollin’Chamas - ocuparam as terceiras posições em cada um dos três dias, respectivamente; ou ainda por que, nos três dias, a nona posição na ordem dos shows foi ocupada por MQN (teatro), Mechanics (teatro) e Spiritual Carnage (palco 2). Isso só pra começar.

Para nós interessa aqui perceber que, graças a esse refinadíssimo planejamento de programação, em todos os dias, a seleção de bandas e o público foram predominantemente ecléticos, e, ao mesmo tempo – e aí está a grande sacada da produção – diferenciados em relação aos headlines e seus estilos estético-musicais.

Na sexta tivemos “a noite das patricinhas”, com um público de “gente bonita” – como foi notado até mesmo pela imprensa formal – se destacando, mas não majoritariamente, até porque havia bandas que mudavam o tom, como Sick Sick Sinners, MQN e Móveis Coloniais de Acaju. Por outro lado, Barfly, Diego de Morais, Violins e Rubín e Los Subtitulados, se encaixavam – bem ou mal – no modelo do Pato Fu.

No sábado, o Cordel do Fogo Encantado atraiu um público notadamente maculelê, com o suporte do Kassim + 2, enquanto a maioria eclética do público foi nutrida pelo balanceamento provocado por bandas como Motherfish, Korzus e Júpiter Maçã.

No domingo – a melhor seleção – o tom que se destacava sem predominar era o preto do Sepultura e do Spiritual Carnage, embora estivessem presentes Mundo Livre, Pata de Elefante e uma ótima seleção de bandas instrumentais e noise.

Como resultado,o público foi muito equilibrado, bem distribuído, sendo difícil até mesmo avaliar “de olho” qual foi o dia mais cheio – domingo, eu suponho.

"Iluminar as contradições não significa resolvê-las."
Bourdieu

O Barfly foi pouco apreciado por muitos comentaristas e atraiu um feedbeck de comentários repetitivos por parte dos cronistas do Noise. O Hígor “cantou a pedra” e vários “críticos” pouco ciosos de suas obrigações levianamente foram atrás, como os bois vão atrás da vaca....

Isso acontece porque geralmente os “críticos” musicais, inclusive os que chegam de outros recantos, além de embrutecidos pela generalizada carência de “belas letras” que marca seu ofício, são extremamente desleixados quando viajam para nosso sertão e parecem se dedicar a outras coisas que não a elaboração bons textos. Assim permanece a tradição dos cronistas locais fazerem o trabalho pesado – particularmente o Sr. Hígor, cujo esforçado trabalho merece destaque, embora não reproduza de modo algum minhas opiniões nem meu ponto de vista – sem serem devidamente reconhecidos.

Surpreendentemente, o melhor produzido nesse campo foi na imprensa, propagandística, vulgar, burocrática e formalmente oficial de outras cidades. Eu li algumas matérias postadas no Orkut e achei que, sem perder a característica superficialidade, um ou dois jornalistas – da Folha de São Paulo e de O Globo -, saíram do lugar comum, destacando peculiaridades locais e o ecletismo, e tratando o Goiânia Noise não tanto como um festival de rock ou “rock independente”, e mais como um festival de “música alternativa”. Será essa a tendência?

Na verdade o show do Barfly não sofre de morosidade ou falta de carisma inerente; o problema é que havia pouco público no horário da apresentação e o teatro é muito grande, o que transmite uma sensação de vazio ao observador. Assim, a opinião do nosso caro Hígor foi registrada justamente como sua impressão, mas indevidamente reproduzida e re-reproduzida pelos indolentes cronistas “estrangeiros”.

“Não sou eu. São as músicas.
Sou só o carteiro. Entrego as músicas.”

Bob Dylan

A música evangélica que movimenta boa parte da sociabilidade juvenil na periferia de Goiânia e em municípios vizinhos é uma importante escola de formação musical para o rock e gêneros afins - desde que, no momento certo, a pessoa escolada na igreja saiba deixá-la. Já tivemos o The Ugly, de Aparecida, e agora temos com o cidadão canedense Diego de Moraes uma fórmula musical que, longe de ser original, ultrapassa em muito os limites do grunge, do rock inglês e de outros estilos underground cultivados no Entorno, indo além do próprio conceito de rock.


Foto em estilo vintage: estética MPB “old school".
Fonte: goianiarocknews.blogspot.com












A primeira comparação que podemos fazer é, muito mais do que com Raul Seixas ou algo assim, com Bob Dylan. É uma comparação desfavorável mas necessária. Bob Dylan fazia uma música genial dentro dos gêneros musicais em que atuava. Sua fórmula foi brilhante em seu estilo, em sua época e país de origem, possibilitando a Dylan a mágica de se tornar um ídolo da música pop internacional. Estes elementos são, no entanto, muito difíceis de serem lapidados na periferia da periferia da periferia. Seu modelo é por demais reproduzido, suas letras são muito acima da média para os padrões da produção local mas não são exatamente boas. Sua imagem nos remete - mas sem encontrar respaldo nas letras e na atitude – ao espírito libertário das canções de protesto da década de sessenta, feitas pelo folk e também pela MPB.

Por outro lado, Diego de Moraes está muito bem posicionado em “potencial de sucesso”. Vou explicar melhor: existem algumas bandas da cena alternativa goianiense que possuem um certo apelo pop e que, portanto, têm algum potencial de sucesso. O conceito de “sucesso” que estou utilizando aqui se refere a um referencial que norteia há anos a produção Monstro-Fósforo: o padrão Los Hermanos. Este padrão diz respeito à forma como muitos integrantes de bandas goianienses entendem o Los Hermanos e sua carreira. Na visão destas pessoas, Los Hermanos representa uma trajetória ideal, já que esta banda consegue viver de música, tem apelo pop, vende bem para os padrões atuais da indústria musical e cobra bem por seus shows. E o que é mais importante: o Los Hermanos conseguiu fazer tudo isso sem perder, de acordo com essa visão, uma qualidade musical característica de quem faz música antes pelo prazer de fazer do que por interesses comerciais ou para atender a demandas de gravadoras, produtoras, etc.

Entre as bandas goianienses, selecionei quatro nomes que, ao meu ver, se destacam - ou se destacaram em um certo momento - em termos de apelo pop e irei mostrar porque acredito que, atualmente, Diego de Moraes e , em seguida, Violins, têm o maior potencial de sucesso entre esses nomes. Deliberadamente deixarei de lado aqui bandas que não são de rock ou não estão diretamente ligadas à produção alternativa goianiense, excluindo também a produção heavy metal, HC e punk.

Violins - e não Violins and Old Books -: esta banda surgiu com o disco Aurora Prisma, cantado em português, e representa uma mudança - de Violins and Old Books para Violins - deliberadamente conseguida com fins de tornar sua música mais acessível ao público. O resultado deste projeto foi, em termos locais, bem sucedido, já que o Violins conseguiu um grande público em um segmento muito jovem e mais amplo que o público típico do rock alternativo goianiense. Assim, o Violins, mesmo nadando contra a corrente estilística do padrão-Monstro, é provavelmente a banda do casting deste selo que conta com, se não o maior, pelo menos o mais fiel público goianiense. Na verdade, o Violins é atualmente a banda de rock alternativo goiana mais respeitada – realmente – fora da cidade também e para confirmar isso, basta fazer uma pesquisa nos blogs mais cotados que acompanham a produção de rock alternativo. O que acontece nesse ponto é o seguinte: o Violins não é a banda goianiense mais divulgada na imprensa e na “crítica” especializada, porque não investe muito capital na divulgação de sua produção; mas, como seus shows atraem um grande público aqui e acolá, isso desperta a atenção de blogueiros apaixonados por indie e pop rock, que realizam um amplo trabalho de consagração devotado e fiel. Assim, nos blogs e outros recantos virtuais amadores produzidos em lugares tão díspares quanto Curitiba ou Recife, o Violins tem mais destaque que qualquer outra banda alternativa local.

Nada disso, no entanto, fez com que o Violins obtivesse o sucesso no padrão Los hermanos até o presente momento. É muito difícil – se não impossível – avaliar fatores de “sucesso”, e não é isso que quero determinar aqui. O que quero é apenas levantar algumas possibilidades; deixemos os fatores ao pessoal da estatística.

Na verdade, se eu concebesse minha visão de mundo dentro da simplória filosofia dos marqueteiros, meu diagnóstico seria simples e duro - seria este um diagnóstico interno, é claro, e não um releasing eufemizado de divulgação ao público, até porque não tomo meus leitores por idiotas: O Violins não conseguiu o sucesso por volta de 2003, 2004 ou 2005 por três motivos:

1 – a quantidade de dinheiro investida pelos seus integrantes não foi suficiente para arcar com os custos necessários para alavancar o Violins.

2 – a posição marginal de Goiânia em relação aos meios de produção e divulgação musical de alcance nacional dificulta o acesso de bandas pop locais a condições de sucesso no padrão Los Hermanos.

3 – os selos independentes não têm estrutura – ou melhor, resposta de mercado – para investir a quantia necessária para alavancar uma banda que tenha provável “potencial de sucesso”.

Chega de pensar em cases: Talvez o Violins pudesse ou ainda possa ter um bom “potencial de sucesso”, e isso justamente pelos mesmos motivos que fizeram com que o Violins and Old Books perdesse qualidade artística (e não necessariamente musical) em sua transição para Violins. Cantar em português com as melodias emo implicou um custo-ganho: custo em qualidade artística e ganho em “potencial de sucesso”. Por exemplo, as insistentes opiniões que comparam a musicalidade em português da banda a Guilherme Arantes e congêneres realmente explicam um dos fatores que comprometem a qualidade artística da banda, embora em termos de angariar público adolescente de classe média isso possa ser uma vantagem.

Por isso, coloco o Violins em segundo lugar destes quatro “valores” selecionados da cena alternativa goianiense:

Réu e Condenado: Lobão é um famoso ex-sucesso dos anos 80 e atual produtor no circuito independente brasileiro, atuando destacadamente como editor da revista-Cd Outra Coisa. No ano de 2004, Lobão publicou o Cd da banda em uma edição da revista. Dessa iniciativa partiu a primeira aventura regular de um nome do rock alternativo goianiense pelos incertos meandros da busca de um sucesso no padrão Los Hermanos. Lobão investiu na dupla por reconhecer a qualidade das letras e a clareza com que a mensagem era recebida – foi isso o que ele me disse em uma entrevista por essa época. Não quero dizer aqui que o Lobão pensou ou insistiu em fazer do Réu e Condenado um “sucesso”, mas que ele reconheceu e publicou a banda, criando uma possibilidade para um “valor” local, possibilidade essa não alcançada.

Rollin' Chamas: Esta banda está na lista representando as bandas cuja maior força na busca do sucesso está nos investimentos financeiros que os próprios - ou alguns, ou um - integrantes das bandas realizam. Muitas outras bandas na história do rock e do pop-rock goianiense investiram de forma intensa o dinheiro de seus bolsos em uma perspectiva de sucesso – todas elas sem obter os resultados esperados. Eu escolhi Rollin' Chamas entre todas porque ela é, no contexto atual, a que tem mais “potencial de sucesso” – isso a coloca na quarta posição da nossa classificação, atrás do Réu e Condenado -, embora esse potencial se afaste do padrão Los Hermanos.

Rollin' Chamas apresenta um tom cômico, um clima de programa de auditório, alguma coisa que lembra Mamonas Assassinas. Há um certo apego ao brega – e a uma identidade goiana que se orienta nessa direção - que faz com que muitas pessoas considerem a banda como sendo um grande valor em termos de potencial pop, mas faço aqui uma ressalva: esse potencial não se encaixa bem no padrão Los Hermanos, já que a paródia cômica da cultura popular por um conjunto de classe média, como fez o Mamonas e faz o Rollin' Chamas, não torna a banda cult ou cult-pop, mas apenas pop, ou pop-brega. Não que isso seja condenável, apenas que não se encaixa no padrão do rock alternativo goianiense.

Diego de Moraes: Se a trajetória do Violins é marcada por uma mudança deliberada para um formato mais pop, a do Réu e Condenado pela intervenção de Lobão e a do Rollin' Chamas pelo auto-investimento, com Diego de Moraes, acontecem os festivais. Uma vitória em um festival acústico - o 25º Festival de Violeiros e MPB do SESI, realizado em 2006 - e uma vitória no festival de novas caras do rock alternativo Tacabocanocd, organizado pela Fósforo Records, serviram de background para a seleção para o festival No Capricho, realizado pela conhecida revista feminina homônima. Este concurso foi também devidamente vencido. Enfatizo essa questão dos festivais não porque para vencê-los é preciso agradar a um júri e, cada vez mais, ao público - e ter muitos amigos votando na internet -, mas porque os festivais são uma tradição que combina bem com o estilo musical de Diego de Moraes.

O que virá adiante na carreira de Diego de Moraes é impossível saber para pessoas não dotadas de poderes sobrenaturais, mas o “potencial de sucesso” deste músico parece promissor, já que na imagem retrô do jovem poeta que corre o mundo com seu violão ainda restam os últimos brilhos da chama dos protest songs.

De qualquer forma é preciso deixar bem claro que o show do Diego de Moraes - ou Diego e os Imorais - foi um dos melhores do festival e talvez o melhor feito por nomes locais - Spiritual Carnage à parte, como hors concours. Seja qual for seu apelo pop, em termos de rock alternativo – e além, porque seu trabalho transcende os limites do rock -, temos aqui um grande nome que ainda não alcançou sua plenitude.

O som do palco principal estava completamente desregulado durante o show do Superguidis, banda gaúcha muito elogiada pela mídia especializada. Alguém que permaneceu no local afirmou que foi um show que animou pouca gente e que o rock gaúcho do Superguidis era mais pra chimango que pra maragato...

O curioso sobre o problema de som do teatro em forma de cúpula é que algumas bandas fazem uma boa regulagem e outras não. Mistérios da arquitetura “funcional” do modernismo...

Após um merecido intervalo, voltei ao palco principal e encontrei o espaço pela primeira vez com um grande público. Havia um ambiente de espera, as luzes piscavam, era evidente que uma banda importante iria subir ao palco.

De repente, começa o espetáculo, a multidão entra em catarse, começam os acordes do Violins.

E eis que surge, em meio aos gritos das muitas fãs, Beto. Sem camisa, pintado com letrinhas, malhadinho, “processado” por homofobia!

Delírio!

Mas desta vez, irei me resignar às inúmeras opiniões críticas que me circundam e fazer uma análise severa, com base em um argumento que foi utilizado por algumas destas pessoas e que me convenceu. Nos tempos do Violins and Old Books, as referências da banda eram referências de qualidade, como Radiohead e uma série de bandas mais ou menos obscuras que na época atendiam pela alcunha de emo. Atualmente, para além do jeito Beto Guedes em português, temos que constatar que, infelizmente, a banda se utiliza de referências estandartizadas, como Coldplay e Travis.

Sobre a questão da “homofobia”, mesmo perdendo em licença poética, vou esclarecer um pouco mais: Beto declarou em entrevista ao site Poppycorn, que, no último disco da banda, Tribunal Surdo, a faixa Grupo de Extermínio de Aberrações teve sua letra denunciada ao Ministério Público por ser considerada “homofóbica”. É obvio que a letra – de inversão – quer dizer exatamente o contrário e por isso, a denúncia não irá dar em nada. A estupidez da pessoa que fez a denúncia, no entanto, é chocante.

Quanto ao show do MQN, posso dizer que apresentou mudanças significativas desde a última vez que vi a banda. Os comentários do público confirmaram a minha impressão de que as mudanças se referem ao novo baixista, cuja pegada mais tradicional – ou melhor, mais tradicionalmente hard-rock farofa – parece influenciar toda a banda, e isso tornou seu som menos visceral e mais burocrático e previsível. Esse desarranjo acabou refletindo tanto na presença de palco quanto na reação da platéia, e nem mesmo o carisma do vocalista e a grande fidelidade do vasto público do MQN foi suficiente para manter o tradicional e infernal ambiente de um show “normal” desta banda em um Noise. Quanto ao som do palco principal, se durante o show do Violins esteve melhor, agora estava ruim novamente.

Para usar uma expressão corrente na cena, digo que o momento mais “rock” de sexta começou quando, no palco secundário teve início a apresentação da banda paranaense Sick Sick Sinners. Rigorosamente corretos ao seguir os mandamentos de sua fé psychobilly, eles realizaram, sem dúvida alguma, a melhor apresentação da noite. Ponto para a tradição do underground de Curitiba. Valeu a noite!

Houve apenas um problema técnico com o som dos Sinners, mas nada que comprometesse o show.

Já o Móveis Coloniais de Acaju, por outro lado, mistura de forma apressada tantos estilos musicais que sua apresentação se tornou uma verdadeira salada, suportável apenas por alguns minutos. Se eles tocassem ska seria legal...

A banda argentina Rubín & Los Subtitulados atraiu minha atenção de forma rápida. Eu vi algumas pessoas dançando alegremente baladas pop com um certo clima new wave e achei interessante e agradável, pelo menos de longe.

Quanto à banda americana The Dts, só tenho a lamentar. Eu não havia lido o mini-release e não sabia que se tratava de uma banda hard-rock, então foi um pouco chocante assistir à performance da vocalista que soava como uma sinistra mistura de Janis Joplin com Tina Tuner. Socorro!!!!

Já escaldado pela péssima apresentação anterior eu apenas pude esperar o pior do show do - como diziam as pessoas mais sarcásticas - Chato Cu, e quanto a isso, não houve imprevistos. Piegas, grudento, ridículo, infantil; mas pop o suficiente para atrair um bom público de “gente bonita” para a noite de sexta.

Sábado:

A apresentação - última, anunciava-se - do Valentina foi um momento carregado de drama. Em uma atuação nervosa, a banda sofreu ainda a impressão de parecer pequena diante do pouco público do grande teatro, naquele crepuscular início de noite em horário de verão. Com o encerramento de suas atividades por motivo de mudança do vocalista Rodrigo Feoli, assistimos ao fim de mais uma banda importantíssima para a formação do rock alternativo goianiense, em sua configuração atual.

E assim o rock – no desenrolar de suas histórias - mostra que, principalmente em seus melhores momentos, é a fugacidade e não a ordem que o define, ao contrário do que os bu®ocratas e seu longo séquito de oportunistas acéfalos querem nos obrigar a crer.

Um clássico do indie rock brasileiro, que nos legou discos memoráveis como Peninsula e Atlantic Flowers, o grupo carioca Pelvs me atraiu ao palco principal, que apresentou novamente os irritantes problemas sonoros. Mesmo assim, foi um show dentro do esperado: muito bom. Agora com seis integrantes para adensar ambientações noise, a banda já soa – infelizmente, porque as mudanças foram para pior – um tanto datada em termos de estética e musicalidade indies.

Foi o Sangue Seco que me levou ao palco 2 pela primeira vez no sábado. O show foi bom, dentro do esperado de uma banda de punk rock que pode ser considerada como um sucessor dos Resistentes.

Quanto ao Kassim + 2, me disseram que era axé e eu não fui. Por isso fiquei surpreso ao me dizerem que havia sido uma solução mais interessante que aquela encontrada – e enfadonhamente repetida - pelo Los Hermanos para associar a estética indie com música pop genérica e ritmos brasileiros adaptados ao gosto da classe média cult.

A dupla chilena que se apresentou a seguir, Perrosky, lembrou um pouco, apesar de ser uma dupla, o Uncle Butcher e aquele seu predecessor canadense, o “Barbecue”. Folkish!

O show do Mechanics foi uma surpresa para mim, talvez porque fazia tempo que eu não assistia a uma apresentação dessa banda que sempre me pareceu pouco interessante e criativa. Dessa vez, porém, foi de se impressionar o punch “metal” apresentado, com momentos de barulho decididamente thrash. Foi a primeira vez em todos esses anos que preferi o show do Mechanics ao do MQN em um Noise ou Bananada. Mas de qualquer forma não foi tão legal jogar latinhas no Migué quanto era antigamente. Sinal dos tempos...

Falando em latinhas, é bom notar que a boa performance do Mechanics neste sábado não teve muita relação com a performance realizada pelo grupo Empreza durante a mesma apresentação. Isto porque a apresentação dos artistas plásticos não se integrou ao show. Ambos – grupo de arte e grupo de rock - ficaram distanciados, atuando à parte, com poucas e desajeitadas interações, geralmente promovidas pelo vocalista do Mechanics, Márcio Júnior.

O grupo Empreza, por sua vez, realizou sua performance em três atos. O primeiro ato – troca de tapas na cara – levou o público a gritar: “beija, beija!”. A seguir, houve as bombinhas e o terceiro ato, o engolimento de cabelos, foi o mais eficiente pelos princípios ascéticos da body art, pois causou repugnância. O problema é que, na escola da body art, o pessoal do Grupo de Viena já atirou uns nos outros com rifles e promoveu orgias multissexuais envolvendo uma galinha que depois do sexo coletivo era comida no sentido literal junto com excrementos. Diante do peso dessa tradição, esse trabalho parece tímido e provinciano.

A todo o tempo, latas eram atiradas nos performáticos, o que me arremeteu à melhor performance artística que eu já assisti em um festival de rock: as duas latas atiradas na cara do vocalista do Violins, Beto Cupertino, no festival Bananada de 2003.

Comparada com as performances executadas no show do Mechanics pelo grupo Empreza, essa performance de 2003, realizada pelo artista plástico Armando Coelho, foi conservadora.

Eu explico: se tomarmos como referência as noções modernistas dos situacionistas e de grupos como o Fluxus, iremos adotar uma interpretação anti-institucional ou anti-museu, ou ainda: anti-white box. Assim, enquanto a performance do grupo Empreza foi combinada – eu inclusive já sabia de antemão que ela iria ocorrer e por isso fui assistir o show do Mechanics – e realizada com o consentimento do grupo, a performance das latadas foi realizada sem nenhum consentimento ou suporte institucional, se encaixando muito mais facilmente em um rótulo de “arte de protesto”. Eu falo deste rótulo porque é justamente esta idéia de “arte de protesto” que está explícita no trabalho do grupo Empreza, embora de forma fake, já que esse protesto não é nem pode ser real em uma arte institucional, pois não é possível criticar ou negar a instituição com sucesso quando se está submetido a ela. Essa ambiguidade entre um discurso pretensamente “de protesto” e uma prática opostamente institucionalizada é uma característica que podemos chamar de “pós-moderna”, em contraste com aquela, “modernista”.

Há um paralelo interessante aqui e que se relaciona a essa inversão “pós-moderna” do discurso “rebelde” que passa a se restringir ao campo da estética pura. Os termos “rock independente” ou “música independente”, se referem, etimologicamente, a uma – narrativa de - resistência ao domínio das majors na indústria musical do Primeiro Mundo de algumas décadas atrás. Hoje o termo independente é utilizado – inversamente também – para se referir a mais dependente de todas as produções musicais: aquela que é dependente - e portanto controlada pelos - dos subsídios públicos e dos patrocinadores. Da mesma forma capciosa, a Folha de São Paulo usou certa vez o termo “artivismo”, para definir a não-ativista-por-ser-institucional arte do grupo Empreza, entre outros grupos citados em uma matéria.

Sob este ponto de vista tradicionalmente modernista, podemos dizer ainda que a melhor performance que já ocorreu durante um show do Mechanics foi quando, anos atrás, eles abriram um show do Krisiun para uma platéia agressivamente metaleira que carimbou todos os integrantes com maldosas latadas.

"O homem que só bebe água tem algum segredo que pretende ocultar de seus semelhantes"
Boudelaire
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Motherfish é atualmente uma das melhores bandas do rock alternativo goianiense; é uma das que mais representam uma vertente que já foi a mais importante da cena independente. Com uma ótima atuação e um indie rock cada vez mais bem resolvido, a banda está com um disco novo que já recebeu muitos elogios. Infelizmente ainda não pude conferir este novo trabalho, mas o show está ótimo!

E eis que, de volta ao teatro, enormes estandartes com garatujas góticas geravam um clima imponente e nos indicavam o estilo heavy metal. A apresentação que teve início foi poderosa e muito bem correspondida pelo público, tudo muito bem conduzido e elaborado. Fundado em 1983, o Korzus é um dos pioneiros do thrash metal brasileiro. Além disso, o som esteve bem regulado e cristalino nesta apresentação, o que favoreceu ainda mais este que foi um dos pontos altos da noite de sábado.

Fechando o palco 2 e fazendo uma sequência pesada com o Korzus, o Mukeka di Rato retornou ao cerrado para fazer mais uma ótima apresentação, mostrando seu hardcore acelerado e irreverente. Em termos de mistura de elementos distintos, a fórmula encontrada por esta banda é uma ótima referência.

Por já ter assistido a alguns shows do Júpiter Maçã, eu sabia de antemão que haveria alguma surpresa, principalmente se o vocalista Flávio Basso estivesse devidamente “preparado” para o evento. Eu também já sabia da importância deste personagem, cujo nome está ligado a bandas clássicas como TNT e Cascavellettes e que, ao longo de uma prolífica carreira nas duas últimas décadas, foi um dos insituidores da identidade psicodélico-mod do rock alternativo gaúcho. Agora o que eu não sabia é que Mr. Frog estaria tão preparado para esta noite! Completamente alterada, sua figura incorporava Iggy Pop e Hebe Camargo em uma só pessoa bêbada querendo dar uma de Robert Plant.

Nem é preciso dizer que foi o melhor show de sábado.

Além de tudo, foi durante o show do Júpiter Maçã que aconteceu a melhor performance do festival, protagonizada por uma fã que simulou sexo oral em seu ídolo. Com essa singela ação, a jovem protagonista deu um banho de atuação artística em um grupo inteiro de “profissionais” do assunto.

Super-chapado por acabar de sair deste ótimo show, só por curiosidade resolvi ver – pela primeira vez - o Cordel do Fogo Encantado. Foi exatamente como já tinham me descrito: uma coisa, um verdadeiro cocô sonoro sem o mínimo de lógica musical. Um mero pastiche – com um pouco de tudo - daquilo que os ingênuos consideram “cultura popular” ou “música de raiz” do Nordeste. É como beber o conteúdo de uma garrafada que contém 44 fragmentos de tipos diferentes de raízes, cada uma indicada – sob o ponto de vista da pajelança, é lógico - para um determinado tipo de mal. Arrrrrghhhhh!!!!!!!!!!

Seja qual for a qualidade de meu julgamento de valor, posso garantir ao leitor uma coisa: esse troço não é rock nem aqui nem na China; portanto, o Noise não é o lugar deste tipo de apresentação – pelo menos enquanto ele puder ainda ser considerado um festival de rock – e é preciso arrumar uma coisa menos ofensiva para atrair o considerável público maculelê de Goiânia.

Domingo:

Cheguei naquela tarde a tempo de ver uma parte do show do Rollin’ Chamas e fiquei muito desapontado por encontrar lá no palco o confortável sofá que nos ajudava a descansar do batidão ali em frente ao “chiqueirinho” da Two Beers. O sofá, além dessa boa utilidade, ajudava a quebrar um pouco o clima asséptico de “convenção de tatuagem” que tomava conta do setor destinado às banquinhas. Mas como o que atribui organicidade a um espaço é o uso que se faz dele, logo as coisas vão mudando e as pessoas aprendem, por exemplo, a “contrabandear” cadeiras do bar para as banquinhas. De qualquer forma, depois do show do Rollin’ Chamas – sem nenhuma novidade ou algo de monta a acrescentar ao que já foi dito – o sofá não voltou mais ao seu lugar de origem, onde sua falta foi sentida.

Camiseta da rádio 97 FM utiliza o rótulo “rock independente”: kitsch

Havia também a marmita do Rollin’ Chamas, só que ela não continha comida e o pior: não era de brinde. Se é assim, foda-se!

O “marmitex” do Rollin’ Chamas: Kitsch










Falando em infra, é óbvio que – ao contrário do que pude observar nas filmagens do festival belga Pukkelpop que foram exibidas nas palestras que ocorreram durante a semana, antes do Noise – não havia cerveja no festival. Havia apenas a porquíssima Sol vendida a salgados R$ 2,50 por latinha. Quem sabe um dia as ordinárias beberagens mainstream possam ser substituídas por uma cuidadosa produção alternativa...

"A resistência à sociedade é a resistência à sua linguagem"
Adorno

Sorocaba é uma terra que outrora produziu bandas dotadas de um certo espírito manchesteriano. Assim, foi um déjà vu assistir, naquela linda tarde de domingo, ao show do The Name. Foi uma apresentação modesta, sem grandes pretensões, tanto no que se refere à postura de palco quanto à musicalidade apresentada pela banda, conservadora e demodê. O baixista, por exemplo, até parecia o do The Cure. Esse foi a primeiro entre os vários bons shows que fizeram de domingo o melhor dia do Noise. Um clima bom, uma música perfeita: eu já começava a sentir saudades de Goiânia.

A boa qualidade do som do palco 2 abrigou - após o Ecos Falsos tocar no teatro – a apresentação da banda gaúcha Damn Laser Vampires. Foi um dos shows mais interessantes deste Noise graças à inusitada e bem elaborada fórmula proposta. O releasing afirmava que a banda tinha uma influência de polca, mas o que dava para identificar mesmo era uma pegada rockabilly ou psychobilly com elementos punk, garage, surf, new wave e um quê de eletrônico industrial. Se isso é polca, então é muito bom!

Vampirismo, glam, latéx, filmes B, o capeta, The Cramps é claro, e HTS. A tudo isso remeteu Damn Laser Vampires.

Foi um dos shows mais legais e “caseiros” ao mesmo tempo. Haviam muitas pessoas conhecidas de há muitos anos na cena e todos curtiam muito. Isso talvez aconteceu graças a uma cabalística interação entre o show ter acontecido relativamente cedo e o público ser também relativamente pequeno, com o interesse que esta banda despertou. Novamente, um clima de déjà vu.

Dois guitarristas conhecidos do rock alternativo goianiense elogiaram a performance da guitarrista – o trio não tem contrabaixo, são duas guitarras e bateria – no tocante à qualidade e criatividade das linhas executadas e à simplicidade e poder de seu instrumento “de 50 reais”.

Macaco Bong, no teatro, fez uma apresentação instrumental suingada relativamente interessante – embora nem tanto quanto alguns colocam -, mais indicada para apreciadores de fusões brasucas jazzísticas.

O Pata de elefante, banda gaúcha, foi o terceiro trio a se apresentar em sequencia! Um instumental pop sem se arriscar em melodias rebuscadas é uma das tendências hype atuais, e isso esses gaúchos fazem muito bem.

É bom lembrar que o Pata de Elefante, destaque do casting da Monstro, foi uma das bandas selecionadas para tocar no South by Southwest Festival, o conhecido festival indie texano. Os outros grupos que irão embarcar nessa trip que marca a intensificação da rede de contatos e intercâmbios com festivais gringos são:

Lucy and The Popsonics (DF).
Vamoz (PE).
MQN (GO).

Lucy and The Popsonics é legal pra caramba!

Durante a passagem de som, o Spiritual Carnage já havia levantado um grande público que não queria entrar no show do Pata de Elefante. Quando o show começou de verdade, o peso da noite metal foi sentido em sua plenitude. A apresentação foi poderosa como sempre e muito bem correspondida por um público totalmente envolvido com a performance da banda.

Símbolo da independente cena de metal extremo de Goiânia e banda mais antiga do gênero em atividade, o Spiritual Carnage tocou pela primeira vez no Goiânia Noise. Esse show marcou assim, ao que parece, o início de uma nova era, de maior interação entre o metal e o rock independente, resultado da nova abertura que o Noise inseriu em sua programação.

Death metal fundamental para a história do rock de nossa cidade. Som brutal e devidas homenagens prestadas a Morbid Angel.

A seguir, fui, acompanhado por outros curiosos observadores, ao show do gringo The Battles, que esteve entre os melhores de todo o festival. Experimentalismo ou qualquer que seja o outro termo com que queiram definir, o resultado foi uma produção brilhantemente artística. Gadgets integradas, a eletrônica a serviço do rock e não o contrário, melodias dissonantes porém ordenadas em um conjunto racionalmente concebido. O resultado de tudo isso foi arrasador e valeu, por si só, a experiência deste 13º Goiânia Noise. Monumental!

A música como um objeto a ser sentido, um corpus musical que é o legado que o jazz deu ao rock. É nestes termos que devemos descrever a apresentação do The Battles, que é a prova viva de que ainda pode haver criatividade e inovação de ponta no rock. Enfim, demonstra que o rock não é só tradição. Está vivo e respira.

A mais vigorosa série de shows do festival chega ao clímax com o fantástico show da banda uruguaia Motossierra. Se em termos de qualidade artístico-musical o The Battles foi insuperável, em termos de performance de palco – apesar do incrível show do Júpiter Maçã ter chegado bem perto -, o Motossierra deu uma aula, uma lição inesquecível. Com um som pesado e ideal para seus propósitos, no estilo que lembra as coisas mais old school do punk proto-hc californiano - Germs, Black Flag – e que se encaixa muito bem na forma rebolantemente anárquica com que o vocalista conduz a apresentação.

Em meio a uma forte chuva, o público se espremeu no último show do palco 2, em uma atmosfera suarenta, abafada e intercalada de moshes. Foi caótico, lindo, digno de uma grande noite, como foi essa de domingo. Não havia cansaço, não havia frescura – viadagem sim, mas sem frescura; esse pode ser o lema do Motossierra – nem corpo mole. Todos participavam desse momento com o restinho de suas energias, sabendo que infelizmente se aproximava o fim desta semana de festa do rock, em sua generosa casa que é Goiânia e em seu maior festival, o Goiânia Noise.

Apoteose!

Após ter todo o tempo do "Nação Zumbi" para me refrescar, pude assistir ao show do Sepultura. Como sempre tive o hábito de fazer, conversei com várias pessoas sobre os shows mais relevantes deste festival. E, sobre o Sepultura, as opiniões estavam bem divididas. Uns achavam que a banda não deveria existir nessa configuração atual e que o novo vocalista não é um substituto à altura do Max Cavalera. Outros afirmavam: “Sepultura é Sepultura”.

De qualquer forma, o show foi impressionante e, se a grande referência é o conceito de profissionalismo, no caso do Sepultura podemos tirar as aspas dessa palavra.

De qualquer forma, o Sepultura foi infinitamente melhor que os outros dois headlines. Mas fala sério: dá pra comparar Sepultura, mesmo meia-boca, com o Chato Cu e com a Costela do Porco Empanado – ou seria Coró do Pau Encantado?

Se um festival como o Birita Rock Atitude nos enche de orgulho e emoção por cumprir o ritual de forma magicamente bela, o Goiânia Noise pertence a um outro mundo, o mundo real. Mundo esse regido pelo dinheiro e mercado – e, no caso do rock alternativo, pela falta de dinheiro e de mercado. Assim, quanto maiores e mais munidos de leis e incentivos, quanto mais coloridos stands de patrocinadores instalarem seus holodecks, tanto melhor será o Goiânia Noise.

Dado esse aspecto material do objeto, temos ainda de lidar com a estética: Até que ponto se deve – ou se pode - sacrificar a estética complexa e o conhecimento “erudito” da cultura do indie rock brasileiro pelo pop fácil? O que significa a expressão “música independente”? Expressão que está na ponta da língua do discurso de releasing institucional – para usar o termo menos infeliz e eufemístico, porque até “nova MPB” eu já ouvi! O Goiânia Noise se manterá como um festival de rock’n’roll ou um dia ele irá se tornar um festival de “música independente”? Sobreviveria ele a uma mudança dessa? E a cena, mudaria também?

Tempos decisivos parecem estar chegando. A cena goiâniense manteve até agora um certo desenvolvimento estável desde o início do século. O que acontecerá?